Helena x Mirika: duas geografias, duas igrejas
Frei Florêncio Vaz (*)
Jeso, este debate teológico e, por isso mesmo, ideológico, dificilmente chegará a um consenso e tende a ficar cada vez mais chato, apesar da elegância argumentativa de Helena Morujão e Mirika Bemerguy.
Sugiro que você dê uma bênção final, na boa. Antes que o Edilberto Sena ou o Everaldo Cordeiro entrem no ringue. Rs.
Antes do "amém", meto minha colher. Mas a minha saída pela esquerda é uma observação de ordem puramente sociológica, sem fazer julgamento de valor sobre quem fala a verdade teológica.
É apenas para a gente entender melhor o embate "Helena x Mirika", que simboliza duas posturas mais amplas de Igreja: Portugal (velha Europa e velha Igreja) X Brasil (América Latina e Igreja da Libertação popular).
Todo discurso deve ler interpretado a partir do "lugar social" de quem fala. Isso inclui lugar geográfico, posição econômica, classe social e interesses sociais. Helena disse que escreve de Portugal, onde os padres nas missas não falam em "voto". A partir de lá ela pergunta: "Desde quando se tornou prática corrente o clero manifestar publicamente seus ideias políticos?", pois essa é uma atitude estranha a ela.
Portugal é um dos países que tem a hierarquia e o povo católicos mais conservadores do mundo. Isso é um fato. É a partir desse conservadorismo (muito associado às classes média e alta), que segue à risca o pensamento da Cúria Romana, que eles "lêem" os ensinamentos do Evangelho. E não conseguem ver em Jesus um rosto "político" e "revolucionário", além daquele "divino". Helena é uma mulher do seu lugar social.
Mirika fala a partir de Santarém, Brasil, e demonstra naturalidade em afirmar que Jesus foi o "maior revolucionário de todos os tempos", e que seus ideiais na prática tiveram conseqüências políticas. Diz ainda que política tem a ver com tudo, inclusive com religião, e que os padres devem sim "informar sobre o jogo de interesses" que está por trás do voto.
O Brasil é um dos países que tem o clero e o povo católico mais críticos e politizados no mundo. E Santarém é uma das regiões onde a Teologia da Libertação, desde os anos 60 até hoje, deu seus melhores frutos. O texto da Mirika é um testemunho vivo desse processo.
Deste lado do Atlântico, a partir de uma situação de pobreza e violência social crônicas, parte do clero e do povo católico, interpreta o mesmo Evangelho de forma diferente daquela portuguesa.
Na Nicarágua, padres ficaram ao lado dos revolucionários sandinistas nos anos 70 e 80. Em El salvador, o arcebispo Oscar Romero foi assassinado em 1980 por denunciar a política de violência contra os pobres e opositores do regime apoiado pelos Estados Unidos.
Na Colômbia, o padre Camilo Torres entrou para a guerrilha comunista e foi morto em 1966. E isso não é de hoje: em Belém de 1834, o padre Batista Campos já se posicionou ao lado dos revoltosos "cabanos".
Então, dependendo de onde o crente está e dos seus interesses bem humanos ele terá uma postura de "fé" e de atitudes.
Que fique claro: não são todos os católicos brasileiros que pensam como Mirika, nem todos em Portugal pensam como Helena. As posições serão muito variadas e até contraditórias, como é contraditória a sociedade.
Vejam o exemplo da greve de fome do bispo pelo rio São Francisco: uma ala de bispos e padres dizia que era justa a atitude de dom Luiz, enquanto outra (liderada pelos cardeais encastelados no Vaticano) diziam que fazer uma greve de fome até a morte não era a vontade de Deus.
O que realmente Deus diz sobre isso? Qual é a verdadeira posição de Jesus frente a política e à revolução social?
Bem, isso já é teologia, e eu paro aqui.
Eu não dei uma resposta sociológica? Ah, minha ciência não tem como saber qual é "o verdadeiro" ensinamento de Jesus. Podemos saber quais são as verdadeiras "idéias das pessoas" sobre Jesus. E esse debate mostrou que existem pelo menos dois Jesus e duas Igrejas "verdadeiros", ambos separados por um... enorme oceano.
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* Santareno, doutorando em Antropologia.
Comentários
Não precisava, de dar exemplos, com datas tão próximas de nós,
de padres politizados, com participação activa na politica.
Pois, a morte de Jesus, foi feita por “Padres Politizados”
que com sua influência no poder governante, concretizaram
a sua crucificação. Também na altura, agiam convencidos
de que era para o bem do povo. Pois Jesus representava para eles
uma grande ameaça.
Precisa de visitar Portugal, pois verá que o conservadorismo histórico
do passado, só existe numa pequena réstia de pessoas, e da qual eu não faço parte.
Hoje, Portugal é um país povoado por uma infinidade de pessoas de vários países,
dos quais uma grande percentagem são brasileiros e todos eles contribuíram para a abertura
psicológica do país.
Acredito que se tiver a possibilidade de nos visitar, iria se sentir muito em casa, e com
certeza aproveitar bem suas aptidões profissionais, nas diversas etnias e graus sociais
que Portugal possibilita estudar.