Samuel Lima (*)
É "Fantástico", o "show da vida" (edição de 03/06/2007). No palco o jornalista Valmir Salaro (ele outra vez) apresenta a "entrevista-julgamento". Uma nova modalidade de reportagem com os dois controladores de vôo – Jomarcelo dos Santos e Lucivando Aguiar – acusados de "serem responsáveis pela maior tragédia da aviação aérea brasileira" – o acidente com o boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006.Rememorando os fatos. Os dados da "caixa-preta" (publicados pelo jornal "Folha de S. Paulo", em 18/02/2007) revelaram três erros fatais cometidos por Joe Lepore e Jan Paladino: (a) O transponder/localizador (TCAS) estava desligado e foi percebido três minutos após a colisão; (b) Os pilotos assumem não saber operar o sistema que gerencia os dados do vôo, como altitude e rota, o chamado FMS ( flight management system); (c) Por fim: os pilotos americanos descumpriram o plano de vôo, que os mandava voar a 36 mil pés após Brasília.
Salaro constrói sua matéria ancorada em estranhas "convicções": (1) Jomarcelo dos Santos é acusado de saber que "poderia acontecer e nada ter feito" – o jornalista cita genericamente a Justiça Federal, para quem ele cometeu um "crime doloso"; (2) Existe um "verdadeiro buraco negro" nos céus do Brasil – e o próprio Salaro já voara (em dezembro de 2006) à região tentando provar sua existência, inutilmente; (3) Os controladores não sabiam falar inglês fluentemente, por isso aconteceu o desastre.
Fica evidente o desprezo pelas por outras informações, como é o caso da investigação da Polícia Federal e os dados da "caixa-preta" que apontam os pilotos americanos como os responsáveis maiores pela morte das 154 pessoas. O repórter da TV Globo alivia e minimiza os equívocos de Lepore e Paladino. Uma tragédia dessas proporções é sempre o resultado de uma sucessão de erros, inclusive dos controladores brasileiros. No entanto, há uma hierarquia de responsabilidades.
Uma pergunta-acusação, feita ao controlador Lucivando Aguiar, denota o juízo de valor que guiou a matéria de Valmir Salaro: "O que você diria para os familiares dos passageiros do avião da Gol?". Sai de cena o jornalista, entra o "juiz federal togado", investido em "poderes" conferidos não se sabe por quem... Será que ele faria a mesma pergunta aos pilotos americanos?
O maior poder dos meios de comunicação, nas sociedades atuais, é o do agendar o debate público. Uma pesquisa feita pelo PNUD/ONU, em 2004, na qual foram ouvidos 231 líderes políticos, empresariais e populares latino-americanos buscou responder à pergunta "quem exerce o poder na América Latina?". A mídia ficou em segundo lugar (65,2%) perdendo apenas para os grupos econômicos e banqueiros (79,7%). Os poderes Executivos (36,4%) e Legislativo (12,8%) ficaram atrás.
Se os dados estiverem corretos, o papel e a responsabilidade da mídia para com a sociedade é cada vez maior. A entrevista-acusação reforça preconceitos, desinforma a sociedade, extrapola o papel do jornalismo (informar com ética e equilíbrio) e o transforma em inusitado "poder judiciário".
---------------------
(*) Santareno, é jornalista e coordenador do Curso de Jornalismo do Bom Jesus/IELUSC.
Comentários
É FANTÁRDIGO!
Severino Aguiar Portela - Farmacêutico