A era do escândalo político midiático
A ocorrência dos chamados "escândalos políticos midiáticos" (EPMs) é uma velha novidade na história da imprensa. Tudo começou na Inglaterra, no outono de 1640, num evento conhecido como "guerra dos panfletos", que, de acordo com o pesquisador John B. Thompson, "se tornou sempre mais feroz e agressiva na medida em que a guerra civil se prolongava".
Desde o berço, o jornalismo (e a produção de notícias como "algo que se deveria descobrir através de um processo de investigação") se conectou fortemente ao campo da política. É de Thompson, o relato: "A conexão entre escândalo e mídia deve, pois, suas origens à cultura do panfleto no final do século 16 e início do século 17, uma cultura em que escandaloso foi empregado para caracterizar afirmações, alegações, acusações e descrições articuladas com a palavra impressa".
Quatro séculos depois, é possível dizer que a mídia brasileira vive na era dos EPMs. Thompson, em sua obra "O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia" define o conceito de EPM: "Poderíamos descrever esses escândalos como eventos midiáticos, porque eles são eventos que são constituídos em parte pelas formas midiáticas de comunicação. A apresentação através da mídia, e o comentário na mídia, não são características secundárias ou acidentais dessas formas de escândalo. São partes constitutivas deles".
Qual será o EPM desta semana no cardápio oferecido pela chamada "grande imprensa", em meios impressos e eletrônicos brasileiros? Até o sábado que passou, perdurou a tragédia do Metrô paulistano. Nas páginas da Folha de S. Paulo (FSP), o acontecimento teve uma abordagem bastante razoável, não obstante a lógica de espetáculo que é marca inerente da cobertura midiática em tempo real, no frenesi da velocidade da luz. A cobertura da FSP foi um contraponto à superficialidade reinante na televisão, Globo à frente.
Nas revistas semanais, o desastre do Metrô em São Paulo ganhou destaque em CartaCapital (ed, 428, de 24/01/2007) sob a manchete "São Paulo no buraco". Na IstoÉ (ed. 1943, de 24/01/2007), a manchete é "Brasil de alto risco", ilustrada por foto de parentes de vítimas da tragédia. Para os editores de Veja (ed. 1992, de 24/01/2007) o assunto mais relevante é outro tema: "Humanos & caninos: uma história de amor", apoiado no texto: "A ciência explica por que essa parceria de 12.000 anos dá tão certo". Na revista Época (ed. 453, de 22/01/2007), a manchete é "Felicidade – como a filosofia pode nos ajudar a viver melhor", não obstante a chamada de capa sob o título "De quem é a culpa: só uma conjunção de vários erros explica o desabamento no Metrô de São Paulo".
Num EPM o acontecimento original desloca-se, gradativamente, para o território midiático e passa a existir, tão somente, em função dessa lógica própria do mundo-mídia, submetido a um tipo de dinâmica e controle específicos. Em última análise: totalmente desconectado do real, da vida das pessoas, dos interesses difusos da sociedade e da cidadania.
Na recente crise do tráfego aéreo brasileiro o limite jornalístico ficou evidente quando repórteres da TV Globo passaram a sustentar a "pauta" a partir de dados estatísticos de "vôos em atraso". Na cobertura desse tipo ficam sempre ocultos da visão do leitor/telespectador/ouvinte/internauta as "segundas ou terceiras" intenções da mídia, no seu afã de protagonizar a cena política.
A "bola da vez" agora passa a ser o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado no começo da semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Recortes e enquadramentos começam a ser construídos. Na televisão duas expectativas distintas foram postas. No Jornal da Globo, o tom pautado pela crítica áspera e apressada do apresentador William Waack – sintonizado com a visão da elite empresarial paulista.
No telejornal do SBT, o tom foi o de "esperar para ver os resultados", na expressão do jornalista Carlos Nascimento. E para não deixar passar em "brancas nuvens", o colunismo político, ávido e ideologicamente "atento" aos interesses patronais, já disparou a primeira "bateria de fogos".
Elio Gaspari, por exemplo, em sua coluna publicada na Folha de S. Paulo (e reproduzida em centenas de jornais, país afora, em 24/01/2007) fuzila o PAC no título e em pouco mais de sete linhas de seu texto: "O pacote vale uma nota de R$ 3". O jornalista exibe um festival de grosseria, que começa com um acachapante vaticínio: "O espetáculo de segunda-feira indicou que terminaram as férias do companheiro e seu pacote não traduziu uma estratégia econômica, expressou apenas uma excitação marqueteira".
Gaspari "traduz" a voz do inconformismo antidemocrático de um colunismo "tautista", ignorado pela opinião do público brasileiro, em maioria inquestionável de 61%, precisamente no dia 29 de outubro de 2006.
Observemos os desdobramentos do jogo midiático, ao longo dos próximos dias e/ou semanas...
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* Santareno, é jornalista, doutor em mídia e teoria do conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do Curso de Jornalismo do Bom Jesus/IELUSC.
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