Agricultura familiar vive decadência




Comentário/ editorial do padre Edilberto Sena no Jornal da Manhã (Rádio Rural AM), de hoje:

Ontem, Dia do Agricultor, passou quase despercebido pela sociedade. Não foi um momento de festa. O grande agricultor, o que planta para exportação, em grandes extensões de terras, está vivendo seu ano de baixa nos lucros. Isto por vários motivos, alguns óbvios; outros não. Está apreensivo.

Já o pequeno agricultor continua sua via sacra de frustrações, cinco abacaxis por um real, um saco de farinha por 40 reais, ramais sem recuperação e o poder público dizendo que não tem recursos etc.

O sindicato da categoria organizou, em Santarém, uma manifestação, diante da agência do INSS. Denunciou a falta de assistência previdenciária aos sócios. Não há esperança de melhoria quando a própria funcionária da agência admite a incapacidade, por falta de funcionários. O abandono do e da pequena agricultora é quase total.

Todas as autoridades públicas devem saber que a sociedade precisa da produção rural, especialmente da pequena agricultura familiar. 80% do que é servido na mesa de todos vem da produção familiar. Pode-se bem calcular que o inchaço das periferias de todas as cidades da região é causado pelo êxodo rural, mais do que por migrações de fora.

Se isto acontece é porque eles e elas estão sem condições de sobreviver da produção rural. A vida na cidade, para quem perdeu seu instrumento de produção, a terra, fica mais difícil do que no campo.

Daí que, o Dia do Agricultor passa a ser um dia de protesto e lamento, nos municípios onde já há um pouco de consciência e organização da categoria. Até que um dia, a maioria dos pequenos produtores rurais tome consciência e decida fazer uma greve geral, deixando de fornecer farinha, frutas, verduras e peixe para a cidade.

Então, essa população urbana, inclusive as autoridades se dará conta que sem a produção rural a vida na cidade também fica impossível.

Lamentavelmente até hoje não se realizou reforma agrária, mesmo que o governo tenha anunciado vários assentamentos e reservas extrativistas. Quando governos escolhem para ministro de Agricultura latifundiário e para secretário de Agricultura, fazendeiro só se pode concluir que os governos não têm sério compromisso com que aqueles e aquelas que abastecem a mesa da população, os que produzem para se comer e não para ser mercadoria no mercado internacional.

Poderá um dia se festejar o Dia do Agricultor? Sim, quando os sindicatos de trabalhoras e trabalhadores rurais de todos os municípios tiverem força, quando as fetagris e contags tiverem maior consciência de classe, certamente haverá um novo céu e uma nova terra.

Comentários

Anônimo disse…
Caro Padre Edilberto,

Não há duvidas de que a agricultura, principalmente a familiar, é fundamental para a manutenção das sociedades urbanas. De fato poucos valorizam-na da maneira que deveriam, muito provavelmente por não termos tido um desabastecimento maciço e perceptível que demonstrasse o valor e a importância dos mesmos.

Bom, ja que vivemos discutindo aqui sobre as nossas divergências ideológicas, argumentarei sobre a necessidade de tornar nossos pequenos produtores rurais em verdadeiros capitalistas. Aposto que o o sr. acabou de franzir a testa, mas continue lendo.

Tanto o grande como o pequeno produtor agrícola nacional exercem atividades muito parecidas mas em escalas diferentes. Ambos mantem uma agricultura primitiva do ponto de vista capitalista, sem agregação de valor e totalmente dependente das variações e sazonalidades do mercado. Não é porque o produtor de soja usa aviões pulverizadores e colheitadeiras de ultimo tipo que deixam de ser produtores de um bem perecível e cujo preço depende da demanda x oferta do seu produto no mercado, sendo assim, tão submisso ao mercado quanto qualquer produtor agrícola primário. O mesmo vale pro produtor de abacaxi que depois de uma boa e farta safra se vê com um outro abacaxi muito maior, o destino a seu produto. Ora, sejamos claros, ambos são produtores e comerciantes. Se muitos produzirem a mesma coisa ao mesmo tempo, teremos um mercado inundado de produtos e consequentemente seu preço cairá, reduzindo o lucro. Naõ fui eu que inventei isso, mesmo antes de se pensar em capitalismo o mundo funciona assim.
Ou se aumenta o consumo ou cria-se novas formas de vender o produto e é aí que está a grande lacuna "capitalista" dos pequenos produtores (e porque não dizer dos grandes também). Se os produtores de abacaxi convertessem seus excedentes produtivos em novos sub produtos (compotas, sucos, doces,etc) sua produção seria plenamente aproveitada a um preço muito mais justo, é a tal agregação de valor. Da mesma forma com a soja. Ao invés de exportar grãos, se houvesse aqui uma industria para verticalizar o "grão maldito, além de mais empregos os sub-produtos como torta e óleo poderiam ser vendidos na entresafra a um preço mais interessante... enfim, a tal agregação de valor.

Não creio que o problema dos nossos pequenos produtores (os já tradicionalmente estabelecidos) seja escassez de área para cultivo. Países onde os produtores tem áreas muito menores produzem diversas vezes mais. O que lhes falta é o tal espírito capitalista tão bem explicado por Weber. A melhor alternativa para viabilizar esse capitalismo sem faze-los dualarem até a morte é uma produção eficiente e verticalizada baseada no cooperativismo. isso vale tanto para os pequenos quanto para os grandes, bem como para reservas extrativistas. Ao invés de trabalhadores Rurais, espero um dia ver empresários rurais de minifúndios altamnte eficientes, mantendo sua dignidade, o sustento de suas famílias e dedicando suas energias para a melhoria de suas vidas e não em causas impossíveis.

O Sr. pode não gostar do capitalismo, assim com eu também tenho algumas críticas aos modelos impostos, entretanto, não gostar da regra de impedimento não nos impede de saber jogar futebol nas mesmas regras que o resto do mundo joga. Resta-nos jogar bem.


Para concluir, não podia deixar de parabenizar os agricultores pelo seu dia passado em silêncio, agradecendo-os pelos alimentos que consumo e desejando um futuro mais próspero onde o agronegócio em pequena escala deixe de ser uma ofensa e vire a salvação para os futuros empresários do campo.