Zona portuária: vai continuar calado?




Comentário/ editorial do padre Edilberto Sena no Jornal da Manhã (Rádio Rural AM), de ontem:

QUEM cala consente e quem consente se torna cúmplice da decisão tomada por outro. Depois do caldo derramado, nem adianta lamentar, mas pagar o preço e amargar as consequências.

O debate ocorrido sábado passado, com técnicos e militantes da luta social, deve ter servido para clarear mente de quem se liga na Rádio Rural. O tema foi o falado decreto presidencial que tornou a frente da cidade de Santarém (desde a praia da Maria José até a boca do furo do Maicá), área portuária, nos padrões internacionais.

Uma das razões de a sociedade santarena não ter sido consultada é que na estratégia do capitalismo internacional, Santarém é um corredor de exportação importante. Assim como Belém, São Luiz, Recife e Paranaguá.

A RODOVIA Santarém-Cuiabá foi aberta não para fazer o bem à população nativa, isso é apêndice. Foi aberta porque era necessária para a exportação das riquezas da região (madeira e minério, na época da abertura e agronegócio hoje, em época de asfaltamento).

Ela se liga a Cuiabá, de lá vai, de um lado para o sul do país, ávido de nossas matérias primas, de outro, segue para o Oeste, passa por Rondônia, Acre, mas seu objetivo mesmo é o oceano Pacífico, no Peru.

E de lá? De lá seguem nossas riquezas para China, Índia, Japão e a costa Oeste dos EUA.

E AÍ, ESSA área portuária de Santarém não carece de consulta à população local. Precisa sim, obedecer aos padrões de portos internacionais, nos conformes para receber navios de 50 e 70 mil toneladas.

Eles precisam de espaço livre para fazer curvas, atracarem e carregarem as dezenas de toneladas.

Tudo planejado de fora e cumprido obedientemente pelo governo vassalo brasileiro, como se não houvesse 200 mil habitantes nesta cidade, dita pelos saudosos, "Pérola do Tapajós". Como se aqui não houvesse cultura, história e direitos humanos.

COM TAL estratégia, se a população local e suas autoridades (Executivo, Legislativo e Judiciário) não reagirem a tempo, daqui a pouco a ordem será proibir o trânsito ao longo da "área portuária da cidade" de barcos da várzea, do Arapixuna, Ituqui, Lago Grande do Curuai e até dos municípios vizinhos. Para não perturbar as manobras dos portentosos navios graneleiros, madeireiros e, daqui a pouco, navios de carregar água potável do rio Tapajós para vender na Europa e Japão.

Ou esta sociedade reage com veemência, ou será cúmplice de mais um etnocídio desta região. Não dá para ficar parado, apalermado e depois tufar o peito e cantar o hino nacional: ...verás que um filho teu não foge à luta...

Qual luta?

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