Em defesa do barulho

Do pedagogo e comunicador Everaldo Cordeiro:

Anderson e Eduardo, respeito vossas opinões e o saudosismo publicado por vocês neste blog em artigos sobre paz, tranquilidade e barulho, dando conta da saudade que tendes dos tempos de menino e de uma Santarém que ficou no passado.

Amigos, os tempos mudam, a sociedade evolui, ou involui é certo, mas precisamos ter bom senso para entender os desafios e diferenças de se viver em uma cidade grande, na urbanidade, da vivência em uma pacata comunidade de zona rural.

Aliás, até estas, infelizmente, estão perdendo a tranqulidade com a chegada da febre do agronegócio. Barulhos sempre existiram e sempre existirão, abusos também. O que precisa existir, isso concordo, é uma mínima ordem estabelecida para garantir a arte do bem viver em sociedade.

Às vezes o silêncio é essencial, mas nem sempre. Assim também uma barulhada. Quem nunca gostou de, estando "à toa na vida", ser chamado para ver a "banda passar cantando coisas de amor"?

Quem nunca gostou de uma batalha de confete ou de uma boa batucada e mesmo de um ensaio de fanfarras, etc e tal?

Geralmente a gente gosta disso quando é mais jovem. A meninada adora a barulhada, faz parte do seu tempo, da sua alegria e santa rebeldia em descobrir o novo.

Talvez seja por isso que os neo-convertidos, católicos ou evangélicos, que redescobrem a alegria de nascer de novo e de se encontrar com uma dimensão festiva do sagrado, fazem seus cultos e celebrações em tons mais altos que o clássico.

Mas são crianças na fé pra quem também esse momento é importante. Para quem sabe que a pedagogia precisa respeitar o caminhar da criança ao do adulto, respeitando as diferentes fazes de cada um, sabe também que é preciso compreender a sociedade em suas contradições, respeitando suas difentes etapas e colaborando pra que todos encontrem seus espaços, com respeito e dignidade.

As leis podem ajudar, mas o essencial é o bom senso, principalmente em nossas críticas, para que elas não se tornem azedas demais e desrespeitosas. Talvez, com mais solidariedade e diálogo, promovido principalmente pelas autoridades civis e religiosas, poderemos organizar melhor nosso bem viver, em nossos silêncios e barulhos.

Como diz a música do Velho Chico poderemos cantar:

"A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor".

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