Soja e câncer

Ainda sobre a cultura da soja. Contraponto de Um Santareno em Belém:

Faço minhas as ponderações feitas pelo Sr. Jubal Cabral e pelo Sr. Valdo Fernando. Seria ingenuidade demais de minha parte acreditar que as mazelas que encontramos em Santarém são resultado da chegada da soja, na região. Como bem colocado pelo Sr. Jubal, não houve distribuição de renda, investimentos em programas de qualificação da população, etc. Determinadas empresas de exploração de minério investem em cooperativas e em cursos profissionalizantes na cidade em que atuam (Sr. Jubal deve saber melhor do que eu a respeito do tema).

É sobre isso que queremos discutir. Volto a repetir: quantos santarenos desfilam em "toyotas hilux" ou "nissans frontiers"?. A postura a ser adotada pelo povo santareno deve ser a seguinte: "Você quer explorar a nossa região? Diga-nos o que você pode nos oferecer em troca? Se for bom para a COLETIVIDADE, então nós aceitamos. Se não for, então não nos interesssa" É a segunda pergunta que está precisando de resposta.

Tampouco aceitarei o rótulo de "ambientalista xiita" pois não usufruir do que a natureza nos oferece também não é racional. Por isso defendo que o turismo deve ser melhor enfocado em Santarém para que vários segmentos possam ser incluídos (hotéis, serviço de transporte, diversão, artesanato, etc.), mas isso é outro assunto.

O que quis colocar em debate é o fato de que a chegada de uma atividade econômica de alto impacto não pode deixar de lado a sociedade local na hora de colher os dividendos, pois, do contrário, não será vantajoso, apenas nefasto. Gostaria ainda de esclarecer a comparação da soja com o câncer, porque esta doença chega de forma silenciosa, pequenina e aos poucos vai se espalhando e tomando conta de tal forma que a recuperação, na maioria dos casos, não é mais possível.

A soja está chegando, de mansinho, tomando conta da zona rural, modificando a paisagem... E quando tiver exaurido o nosso solo, irá embora, sem olhar para o estrago que causou, pois os sojeiros não são daqui. Não possuem identidade com a nossa gente. Não lamentam a morte da Vera Paz. Não se importam com a bagunça que fazem na orla, com seus carrões.

Comentários

Anônimo disse…
Tem viés saudosista, bairrista e de gueto o discurso dos que se posicionaram até agora aqui contra a cultura da soja. Do Sr. Jubal Cabral ao do Sr. que assina Um santareno em Belém e ainda o Sr. Valdo Fernandes, todos falam como se o município ainda estivesse na década de 50, 60, 70. Acordem, senhores, o mundo se globalizou! As fronteiras econômicas, sociais, políticas e físicas estão cada vez mais diluídas. Santarém está inserido neste contexto e é a partir dele que se deve pensar. O passado não voltará, a bucólica cidade sem violência, sem progresso, sem carros importados não ressuscitará. A soja é uma realidade, uma alavanca de desenvolvimento indiscutível. Não é "A" responsável pelas mazelas sociais de Santarém. Isso é herança de governos e desgovernos que se sucederam e se sucedem até os dias atuais. Não há empregos? Já foi muito pior. Ou no ciclo do ouro isso não era realidade? A prostituição não vigorava? As mortes e assassinatos não eram rotineiras? Santarém não é gueto destinado de enriquecimento destinado apenas aos que aqui nasceram. Existem sojeiros e sojeitos, assim como santarenos e santarenos. Aliás, há gente que aqui não nasceu que faz mais pela cidade do que quem é santareno. Exemplos? Há muitos e muitos, principalmente no campo da política. A soja pode até ter seus efeitos colateriais negativos, mas a cultura de todos os males é puro emocionalismo. Não encontra respaldo na realidade que nos circunda. Um exemplo. Em breve, uma nova concessionária abriará suas portas na cidade. Os seus donos são paraenses, que vão gerar novos empregos e tributos para os santarenos. Investem aqui não tenham dúvida por causa da soja, da cultura de grãos na região se espalha.
Fui ler o meu comentário sobre o ordoxismo ambiental e não consegui verificar nenhum saudosismo em minhas palavras. Sr. Carlos Trajano, não fiz parte dos que emitiram o Relatório do Clube de Roma sobre o meio ambiente. Não fiz nenhum comentário sobre a "ciencia do pessimismo" tão defendida pelos economistas Malthus e Ricardo. Não ofendi quem está chegando (minha familia e de milhares de outros santarenos vieram de fora). Portanto acredito que o senhor leu outro cometário e não o meu.
Mas, como o senhor demonstra ter uma cultura avançada proponho a leitura (de novo ser já tiver sido efetuada) das seguintes publicações:
1 - Nosso Futuro Comum - Relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1988.
2 - Contra-Discurso do Desenvovlvimento Sustentável -organizado por Marcionila Fernandes e Lemuel Guerra.
O senhor verá que quando discutimos desenvolvimento sustentável, estamos discutindo crescimento economico com responsabilidade social e com distribuição de renda. Que não queremos que os municípios do oeste do Pará atingam o estágio de "Estado Estacionário" da economia, como querem alguns ecologistas alarmistas, mas um estágio de desenvolvimento com proteção ambiental, com a redução da pobreza e com políticas de investimentos sólidos voltados para educação, saúde, habitação e alimentação.
Não duvido que muitos outros investimentos virão na cola da soja, mas queira Deus que não se repita o "lock" que está ocorrendo em certas regiões onde os implementos agrícolas e outros bens duráveis estão "encalhados" por falta de compradores. Se não for feita uma distribuição de renda e o preço internacional da soja cair a níveis alarmantes, quem comprará os carros desta nova distribuidora?
Não existe uma dicotomia entre desenvolvimento e meio ambiente. Sem um, o outro não subsistirá, pode ter certeza!