A baleia do rio Tapajós

Foto: Erik L. Jennings Simões
Baleia no Tapajós (Santarém - PA)

por Erik L. Jennings Simões (*)


“Baêia”! Gritou o curumim do colo da mãe à beira do rio Tapajós. No mesmo instante, um forte esguicho de água saiu do dorso do grande animal, rodeado por canoas, montarias e rabetões. Acreditei. Era verdade. Não era engano das rádios, quando anunciaram na manhã do dia 15 de novembro de 2007 que havia aparecido uma baleia na margem direita do rio Tapajós, na comunidade de Piquiatuba. Eu estava confirmando, com meus próprios olhos, algo inacreditável, improvável pela ciência, mas que o curumim amazônico já anunciara em alto e bom tom da verdade.

Com um pouco mais de um ano, ainda aprendendo a falar, o moleque jogava, rio abaixo, muito do que aprendi na escola. Baleia é de mar, meu filho, e não de rio, dizia a professora. Os animais marinhos são osmoticamente adaptados, diziam os princípios da biologia. Mais um esguicho, e o curumim... “Baêia”! Só me restava virar criança, esquecer o que aprendi e entrar na água do rio Tapajós para ver e fotografar a baleia, que viera visitar os confins de água doce da Amazônia.

Com a água um pouco acima da cintura, pude chegar bem perto do animal, que estava parcialmente encalhado. Tinha uns seis metros de comprimento e peso estimado em doze toneladas. O dorso era escuro e apresentava comportamento dócil, porém com movimentos persistentes em nadar. Tratava-se de uma baleia da família Minke. Comecei a fotografar e filmar ao mesmo tempo, maravilhado com o que estava vendo. Aquilo era o tipo de coisa que só vendo para acreditar. Mesmo assim demora algum tempo para se convencer que não é um sonho.

Quanto mais eu fotografava o animal, mais tinha a certeza que muito “cabôco” passou por mentiroso, quando falou que viu a cobra grande. Lembrei dos que desapareceram no rio por culpa da cachaça. Não seriam baleias, tubarões e outras espécies do mar que há muito nos têm visitado? Quantas outras já não estiveram por aqui sem ser notadas? Ver aquele animal, a mais de 1400 km do mar, nos remete a pensar mais nos mistérios da vida e nos mistérios do rio. Sua presença nos lembra muito do que ainda não sabemos pela ciência. Reforça o quão belo e monstro é este rio, e que, por isso, sem esforço, abriga tantos outros monstros em seu doce e profundo leito.

Os esguichos de sua respiração, bem na minha frente, molhavam meu rosto e, por algum instante, respirei o mesmo ar que o animal expirara, só que pulverizado com as águas do Tapajós. Se antes a minha, e nossa, ligação com o rio era verdadeiramente amazônica, agora ela passara a ter conexão com outros mares. Nosso orgulho agora tem dimensão oceânica, transcontinental!

Convenci-me que o beneficio de resgatar o animal, para o mar, seria tão duvidoso quanto deixá-lo por aqui. Não estaria o mesmo já adaptado ao doce, azul e belo rio “que trazemos correndo na veia”? Devolvê-lo ao mar não seria mais arriscado, doloroso e improvável processo de readaptação? Quem pode agora afirmar que, no sangue da baleia, também já não corre o mesmo calor do rio do curumim? Neste dia, o sol se pôs, e a baleia Minke desapareceu, nas profundezas... Do rio.

Talvez, quando o curumim crescer, ele possa aprender que baleia também pode viver por algum tempo no rio. Aprender, com mais convicção, que cuidar dos animais e do meio ambiente, também é cuidar do homem. Desejo que no futuro, já maduro e com seus filhos, o curumim possa gritar com a voz firme e rouca... Baleiiaa!

Que não seja a que vimos hoje, mas que sejam outras que haverão de vir por aqui.

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* Santareno, é médico neurocirurgião.

Comentários

Anônimo disse…
Belo texto, como todos os outros.
Parabéns.
Anônimo disse…
Este mundo está estranho mesmo. Uma baleia perdida mobiliza a mídia mundial, emociona cirurgiões, engenheiros e outros doutores. IBAMA, ONGs e sabe lá mais quem estão dispostos a gastar milhões para "salvá-la".

Enquanto isso, seres humanos, aos milhares, morrem de AIDs na África e às vezes, passam fome na casa ao lado da nossa. Na mesma Amazônia, o curumim a que se refere o competente cirurgião, provavelmente esteja cheio de vermes, por falta de cuidados básicos de higiente e alimentação inadequada. Mas a baleia é muito mais importante que o figurante curumim.
Anônimo disse…
Pena que a baleia morreu.
Bela foto! Parabéns por ter sido testemunha e ter chegado perto da baleia perdida.
Que legal, tava curioso pra ouvir tua historia. Agora manda as fotos pro meu email pls.
abar�o
gil
Anônimo disse…
Gostoso..o texto, que fique bem claro! ahahahahah

Pandora
Anônimo disse…
Pessoal,

Nem sei se a tal baleia morreu ou não e também não acho que seja hora de discutir sobre o estado de saúde dos curumins (será que o amigo do comentário acima já fez alguma coisa pelos ribeirinhos?!!!). Mas sei que é preciso sim ajudar de alguma forma a baleia a retornar ao mar salgado. No nosso mar verde e doce (Tapajós) não existe camarão suficiente pra alimentá-la e talvez os nossos peixes não façam parte do seu cardápio.
Assim, sugiro que alguém aí, médicos, biólogos, ribeirinhos,... entre em contato com os institutos brasileiros que têm mais experiências com os cetáceos segundo a International Whaling Commission pra pedir conselhos sobre o que fazer. Veja o texto a seguir



Dear Jose,

I am sorry to hear about you situation with the minke whale. The IWC has established a Stranding Network for occasions such as this and I have attached the details of the contacts we have for this network in Brazil. These people/organizations should be able to offer you advice and expertise in dealing with the stranded whale. I really hope you are successful in saving the whale.

Best wishes
Jemma Miller


Brazil North eastern Stranding Network - REMANE Centro Mamíferos Aquáticos / IBAMA (Coordinator)
Fundação Mamífero Marinho; Grupo de Estudo de Cetáceos do Ceará - G.E.C.C./LABOMAR-UFC; Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos - AQUASIS; Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Centro Golfinho Rotador; Universidade Federal da Bahia -PreaMar; Sociedade de Pesquisa, Preservação de Mamíferos Marinhos Projeto MAMA, Instituto Baleia Jubarte
+55 81 3544-1056
+55 81 3544-1835


South eastern Stranding Network - REMASE Centro Mamíferos Aquáticos / IBAMA (Coordinator)
Instituto de Estudos da Ecologia de Mamíferos Marinhos – ECOMAMA; Projeto Atlantis; Universidade Federal Fluminense - UFF; Centro de Estudos sobre Encalhes de Mamíferos Marinhos - CEEMAM; Aquário de Ubatuba; Instituto Terra & Mar; Projeto BioPesca; IFAW – Brasil; Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos GEMM-Lagos/FIOCRUZ; Instituto Baleia Jubarte; GREMAR; CEMAR; Instituto de Pesquisas Cananéia – IPeC; Parque Estadual da Ilha do Cardoso; LABGEM – UNESP; Laboratório de Biodiversidade Molecular - LBDM – UFRJ; Projeto Maqua – UERJ; Instituto Aqualie; Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; Instituto Orca; Centro de Estudos em Ecossistemas Marinhos e Costeiros do Espírito Santo – CEMARES; Projeto Boto-cinza; Lab. Radioisótopos – UFRJ
+55 24 3362-9885

Southern Stranding Network - REMASUL Centro Mamíferos Aquáticos / IBAMA (Coordinator)
Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul -
CEPSUL/IBAMA; Museu Oceanográfico do Vale do Itajaí - MOVI; Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar –Universidade do Vale do Itajaí; Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental - NEMA; Coalizão Internacional da Vida Silvestre - IWC/Brasil; Centro de Estudos do Mar -Universidade Federal do Paraná/UFPR; Museu Oceanográfico de Rio Grande; Laboratório de Mamíferos Marinhos - Fundação Universidade Federal do Rio Grande/FURG; Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul - GEMARS; Laboratório de Mamíferos Aquáticos – Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC
+55 47 3348-6058
Anônimo disse…
Linda foto!!!

Quanto a Minke, ela , é a mais recente e divina prova de resistência e sobrevivência, e o melhor,de que nós pobres seres humanos mortais ainda não vimos nada...
Anônimo disse…
Ela morreu e mais uma vez o Ibama mostrou sua competência...
Talvez se a pequena Mink fosse um tora de 5m³ encalhada em algum pátio madeireiro o órgão tivesse tido condições de 'salvar'o bichano...

Essa é mais uma prova de que é preciso morrer, tanto uma baleia quanto a nossa floresta, para o órgão provar que pode fazer alguma coisa, uma necrópsia ou escostar 'as baleias' no pátio do órgão...

salvem as baleias da Amazônia!!!

Ah! belo texto, quando crescer quero escrever bem assim...e linda foto também...oi um por do sol diferente de todos os outros...



Mariah Olâmpio
Anônimo disse…
vale lembra ao comentário 2007 14:05, que a baleia Mink também é um simples mortal, tão iqual a nós... que morreu...
resta-nos agora, cuidar das 'Mink's' que estão vivas, como o curumim que gritou 'baeia'




Mariah Olâmpio
Anônimo disse…
O TEXTO COM OS OUTROS TEM OPINIÃO E POESIA. UM BELO RELATO PARA QUEM NÃO PODE VER A BALEIA AINDA VIVA.
Anônimo disse…
se o curumim esta com verme e forme a culpa nào e do médico e sim do governo que nào da assistencia a essa populaçáo . alberto
Anônimo disse…
Dr. Érik,

Texto especial que expressa a reação e a sensibilidade do nosso povo ante a visão e o contato com o inesperado.

Testemunhei a sua expressiva participação não limitada ao lindo e natural cenário, posto que visivelmente estudava também reações.

Parabéns!

Roberto Vinholte.
Anônimo disse…
Uma modesta sugestão aos que leram o texto do Erik Jennings e aos que ainda irão ler:

Simplismente leiam o texto e não o contextualizem com problemas outros. Trata-se do bonito relato da visita inusitada de uma baleia em terras tapajônicas.

Parabéns ao Erik.

(por acaso parente da Riva / Paulo Jennings ?).

Luiz Aurélio Imbiriba
Anônimo disse…
Cabôco:

Belo texto como tantos outros.

Também sou daqueles que acha o acontecimento da Baleia pra essas bandas do Tapajós algo maravilhosamente contraditório sobre a ótica da biologia, da geografia e da cultura. Gostei no teu texto da observação da criança em ralação a presença da Baleia naquela remota praia da Floresta Nacional do Tapajós. São justamente elas, as crianças que devemos educar para que possamos ter um mundo melhor. Obviamente não tinha como não ler as diversas reações manifestadas aqui. Sendo assim gostaria de defender aqueles que se manisfestam positivamente sobre a presença da ilustre visitante por essas bandas equatoraiais. Provavelmente, meu caro amigo,todas as pessoas com exeção do anônimo da 11:02 tem ou já tiveram verme nas suas barrigas. Discutir o porque seria tirar o foco da discussão. Mas uma coisa eu tenho certeza. Existem muitos "Anônimos das 11:02" no mundo. Essas são pessoas egoistas que muito provavelmente não devem saber que os mesmos cirurgiões, engenheiros, outros doutores, Empresários e ONGs e sabe lá mais quem que se manifestam sobre baleia também expõem suas caras a tapa para defender a abertura do hospital Regional, contra a presença de estúpidos motoristas e motociclistas que insistem em invadir criminosamente as nossas praias etc. etc. etc.
Acabo descobrindo que pra verme temos os pantelmins e chá de raiz de açaizeiro porém contra os estúpidos igual ao anônimo das 11:02, nem labagem intestinal de creolina resolve para esses estúpidos só nos resta o lamento e o desprezo.
Anônimo disse…
Aposto que o elemento que lembrou-se de pessoas com aids lá na áfrica deve ser um desses muitos doutrinados pela igreja que se diz da "P"roject "A"ma"Z"on.
Aldrwin Hamad disse…
Mano Erik, errei feio. Mandei o texto ontem ainda na ressaca da empolgação da possibilidade de termos uma nova espécie singrando o Tapajós azul... Lá se foi a teoria da adaptação do bicho. Pelo menos agora tenho certeza de que daqui a Baleia não sairá. Fica a torcida para que a necrópsia forneça mais dados para a compreensão da espécie e que seus restos mortais possam ser usados para ensinar as crianças da cidade e das comunidades ribeirinhas.
O teu texto dispensa comentários, só reforça a tese de que tua capacidade de observar e compreender as pessoas transcende tua profissão.

Espero não perder nunca a capacidade infantil de admirar e emocionar com uma descoberta e uma novidade. Prefiro parecer um tolo que ainda contempla a aparição de uma baleia em um rio amazônico, de um cometa que só retornará em 300 anos ou de um efêmero meteorito, que imaginar ver minha breve existência somente pelos olhos da miséria e das desgraças. O mundo é um lugar cheio de problemas, a sua maioria criada justamente pela espécie da qual faço parte. Tenho (temos) a consciência tranquila de que fazemos a nossa parte para deixar algo de melhor para os que hão de passar pelo menos em um pedacinho desse pálido ponto azul perdido no espaço. Certamente não temos meios nem a petulância de corrigir a nossa espécie, mas não nos omitimos da parte que nos cabe. Lembrando John gray em cachorro de palha, se perdermos a capacidade de contemplar as cada vez mais raras belezas e surpresas boas que nosso mundo nos dá, o que restará em nós para chamarmos de humano?
Anônimo disse…
Bem feito estúpido das 11:02
Anônimo disse…
Adoro o blog do Jeso. Sempre qdo bate a saudade dai de Santarém eu corro para saber as noticias dai. Parabéns pelo Blog Geso..essa matéria sobre a baleia me encantou.e a saudade dai de Santarém só aumentou.
Andreia
São Luis - MA
Anônimo disse…
Sou o “estúpido anônimo das 11:02”, que se atreveu a opinar que o curumim ribeirinho é mais importante do que a baleia perdida. Já esperava essas reações apaixonadas de ecolologistas de zona urbana, que se emocionam com baleias, mas são totalmente insensíveis com seres humanos. Me deixou surpreso somente a reação do “Doutor” Samuel, que me ofendeu desnecessariamente. Não tive a oportunidade de estudar como o senhor, doutor, mas não o invejo por isso, pois tanto estudo não lhe ensinou valores que aprecio, como o respeito ao próximo, anônimo ou não. Apenas emiti minha opinião, não ofendi ninguém e admiro muito o Dr Erick por sua postura cidadã em assuntos tão diversos e de interesse público, assim como também gosto de seus excelentes textos, doutor Samuel. Me permita somente não concordar com tudo que leio, coisa que o senhor faz, aqui no blog, com muita competência, quando não concorda com a mídia. Se lhe chamarem de estúpido por isso ou lhe mandarem tomar creolina, virei aqui, com meu anonimato, defendê-lo, mesmo sem ter diploma de doutor.
Anônimo disse…
Jeso, percebi agora que não foi o Dr Samuel que assinou o comentário que me chamou de estúpido.
Se não foi ele, pode ignorar meu comentário que fiz sobre o seu texto. Se foi, pode publicar.
Jéah_Silva disse…
Por que as pessoas que criticam são anônimas???
Medo?? Medo de quê??
Afinal hoje em dia todos somos livres para expôr nossas opniões certo?
Mas por quê criticam??
Um texto belíssimo como esse falando sobre a fantástica descoberta de uma balei nas águas do Tapajós!!!
Aí vem uma pessoa que julga o médico ou quem quer que seja por causa do estado de saúde do curumim ou coisa assim... Mas aí eu pergunto será que é só o Erik que tem que fazer alguma coisa??
E nós?? Fazemos a nossa parte??? Já que o governo não toma iniciativa nenhuma... Como verdadeiros irmãos temos que nos ajudar... E não sermo tão egoístas nos preocupando só com o nosso bem-estar...

Erik, lindo texto amigo, nem me levou pra ver a baleia né? hehehe
Fiquei maravilhada com a foto. Td muito lindo.. Parabéns!!! Vou colocar ela no meu fotolog tbm.. =]


www.fotolog.com/jessymonike
Anônimo disse…
Dr Erick -
A baleia lamentavelmente morreu. A noticia deixou de ser noticia. Os focos da midia se projetam para outras atrações. A vida segue.
Mas seu texto fica. Reproduzindo de maneira simples e objetiva um encontro que nunca houvera.
Nada precisa ser dito. Triste aqueles que não enxergam por cima do texto, por cima da visão sempre critica contra alguma coisa . Se Carlos Drumond escrevesser no blog do Jeso ....
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra ...
com certeza. algum anônimo iria escrever metendo o pau na prefeitura, nos buracos etc etc ...
por isso, segue em frente caro amigo .. guarde com carinho seus textos e em breve os publique para que agrupados possam demonstrar a grandeza de sua capacidade, simplicidade e sensibilidade .

Antenor Giovannini
Anônimo disse…
Jeso,

Assino todos os comentários e textos que publico, aqui no blog e em outros espaços. Faz parte da minha educação democrática: quem escreve e publica, não importa a natureza do texto, tem de conviver com o contraditório.

Não sei de onde raios o "anônimo das 11:02 (20/11), 10:29 e 10:32 (21/11)" tirou que eu assinei o comentário crítico à sua primeira intervenção neste espaço. Acho o "biombo" do anonimato simplesmente deplorável. É só!

Li o texto do Erik como quem lê poesia, na perspectiva de buscar um alimento pra alma. São crônicas assim que nos tiram do limbo do cotidiano e nos remetem à universalidade humana. Valeu, mano velho!

Saudações mocorongas,

Samuca