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Jeso Carneiro

Santarém (Tapajós, Amazônia) e cercanias - fatos, fotos e opiniões.



terça-feira, janeiro 22, 2008

Febre amarela e preconceito verde

por Edilbeto Sena (*)


Essa situação crítica de um surto de febre amarela no Brasil tem vários aspectos a serem considerados. Um deles é o político-internacional. Como é que um país tão rico, com economia e medicina tão avançadas, permite um atraso desses de uma doença que já não existia há muito tempo volte a ameaçar sua população, assim como a dengue?

É sinal que a saúde pública ainda não é prioridade no país. Novamente o Brasil entra na lista de países de risco para visitas de estrangeiros, como são os países africanos, ou o Peru e Equador, vizinhos pobres aqui da América do Sul.

Imagine a repercussão negativa para o turismo brasileiro. Quando um país entra na linha de risco por doenças tropicais propagáveis, como a dengue, a malária ou a febre amarela o visitante tem que ter comprovante de vacina. No caso da febre amarela, um comprovante internacional de vacinação, caso contrário a pessoa retorna no mesmo dia de volta e a companhia aérea ainda paga uma multa grande.

Outro aspecto , este já nacional, é o risco de a doença se alastrar pelo país a fora e se tornar uma epidemia, o que será um desastre para a vida humana, a economia nacional e para a política do governo.

De repente, todos os estados procuram se prevenir, mas nem todos os municípios estão equipados com vacinas. No Pará, ainda sem casos comprovados de febre amarela, Alenquer está dando sinal de que não tem vacina suficiente. Em Santarém, começam a formar filas grandes em postos de saúde. Isso pode gerar certo pânico populacional, tanto que já aconteceu de pessoas tomarem a vacina duas vezes por medo de pegar a doença e se deram mal, já que a vacina só pode ser tomada 1 vez, de dez em dez anos.

Mas há outro aspecto também nacional, que foi manifesto pelo surto da doença, o preconceito do Sul contra a Amazônia. Calhou que a febre amarela atacou pessoas em Goiânia, Belo Horizonte e na capital federal. Justamente lá, em Brasília, nas barbas do rei. Quando a notícia se espalhou, autoridades nacionais e alguns meios de comunicação de lá anunciaram que as áreas de alto risco da doença eram o Norte e o Centro Oeste.

Isto é, a Amazônia era área de alto risco porque tem floresta e tem macacos. Como desde sempre, a Amazônia é ignorada e considerada Inferno Verde ainda. A fantasia do Sul ainda acredita que aqui nas ruas transitam jacarés, surucucus, pernilongos carregados de malária e febre amarela.

Acontece que até agora nenhum caso da febre amarela foi constatado em nenhum município do Norte. Em Santarém, não há registros da maldita doença desde 2003, por que então a notícia não diz que Brasília, Goiânia e Belo Horizonte são as áreas de alto risco?

Até nas evidências do atraso do país em matéria de saúde pública o preconceito contra a Amazônia recai mais. Esta região, para o Sul, é o Inferno Verde de onde só interessam as riquezas, os minérios, as madeiras, as hidrelétricas a serem tiradas para delícia do Sul e das multinacionais.

É preciso que os e as amazônidas se encham de mais cidadania, autoestima e reajam a tais preconceitos mostrando que a Amazônia é terra de milhões de seres humanos que aqui vivem e têm dignidade.

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* Santareno, é padre diocesano. Dirige a Rádio Rural AM e é pároco da igreja de N.S. de Guadalupe, no bairro de Nova República.

2 Comentarios:

Anonymous Anônimo Disse...

É seu Edilbeto Sena, este preconceito o nortista sente na pele quando resolve vir ao sudeste.
Aqui por esses lados passou de Minas Gerais é nordeste.
O Brasil aqui é divido em 3 regiões: sul, sudeste e nordeste. O norte só existe para fornecer matéria prima, diga-se de passagem sem ela o Brasil não iria para frente.
Quando chega gente do norte por aqui, tem que se trabalhar em dobro, para provar que é capaz.
Lembro que cheguei aqui para fazer estágio, recém-formada, porém já trabalhava com eqüinos, faziam cinco anos, o serviço que me deram foi escovar e dar banhos em cavalos (olha que isto foi dentro de uma universidade). Fui a única dos estágiarios a fazer este serviço, pois os outros não precisavam provar nada. Fiz com muito orgulho, hoje terminei meu doutorado nesta mesma universidade, estou iniciando o pós-doutorado com convite para ir a Australia, mas só eu sei o quanto sofri na pele o preconceito por ser nortista.
Tenho orgulho em ser Paraense, em ter minhas raizes em Santarém, pois minha avó foi uma pessoa espetacular. Sempre que posso homenageio a minha terra. Coloquei na minha dissertação e na tese epígrafes sobre minha terra tão amada.
E assim, pretendo um dia voltar e trabalhar ai.
Rita Sampaio

23 janeiro, 2008 11:55  
Anonymous Anônimo Disse...

Caríssimo Edil,

Não tem a ver com preconceito, nem questão sul-norte, a meu modesto juízo.

A "febre amarela midiática" é mais um desses episódios lamentáveis de cobertura da mídia, marcada pelo alarmismo e exacerbação de papel. Cito dois casos:

(a) Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo, assinou texto intitulado "alerta amarelo" (Folha OnLine, 09/01/2008) mandando todo mundo se vacinar, "antes que seja tarde". Uma sandice sem limites, irresponsabilidade e estupidez tudo somado. Só não teve coragem de culpar o presidente Lula pelas mortes em decorrência da febre amarela silvestre - faltou pouco para tanto. Não satisfeita, publicou alguns dias depois outro texto ("Seis casos, cinco mortes", 16/01/2008) onde reafirma o desatino, se fazendo de vítima por conta das reações ao seu texto. Se fosse seguida ao pé da letra, a proposta seria um desastre em termos de saúde pública no país.

(b) Programa Canal Livre (Band, 20/01/2008): a equipe de jornalistas daquela emissora se esforçou, flagrantemente, para que dois infectologistas de S. Paulo (um de um grande hospital, outro da USP) confirmassem a epidemia iminente e dessem munição para responsabilizar os entes públicos da saúde. Deram com os burros n'água. Desinformados, ficavam o tempo todo tentando armar pegadinhas aos entrevistados, coisas do tipo "o governo podia combater na selva o agente transmissor" - no caso o macaco - ao que o entrevistado respondeu secamente: "só se mandasse matar os bichos no meio da mata...".

Estou escrevendo sobre esse episódio e devo enviar ao nobre Jeso um artigo, nas próximas 48h, se o aperreio do trabalho mo permitir por aqui.

Sua bênção, mano velho!

Samuca

23 janeiro, 2008 13:47  

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