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Jeso Carneiro

Santarém (Tapajós, Amazônia) e cercanias - fatos, fotos e opiniões.



quinta-feira, setembro 06, 2007

Os perigos de um Pará já dividido. O Zé-Povo paga a conta, como sempre...


por Manuel Dutra (*)

Há algum tempo escrevi que a vitória de um “não” no esperado plebiscito pela revisão territorial do Pará será pior do que a não realização da consulta popular. A questão de fundo é: como ficará a relação de Marabá e Santarém, vitrines das duas regiões que pleiteiam a autonomia, com a capital Belém, depois de um possível revés no plebiscito?

E não me refiro propriamente aos políticos e aos empresários, pois estes sempre encontram maneiras de se ajustar às situações esperadas e inesperadas em suas alianças com os grupos predominantes em Belém. Penso nos demais setores sociais do Sul e do Oeste paraenses, pois a luta pela emancipação, pela primeira vez, está indo muito além da arena partidária para afetar majoritariamente a população.

O que preocupa é a maneira irresponsável como a questão vem sendo tratada. Do lado dos contrários, o discurso é o da desqualificação debochada de uma demanda que envolve uns tantos milhões de paraenses majoritariamente desejosos de ver, pela autonomia político-administrativa, um futuro diferente do presente. Do lado dos militantes favoráveis percebe-se que não têm a exata noção da magnitude da questão. Entre os erros crassos cometidos está a inclusão do Xingu na área a ser desmembrada, supostamente não muito do agrado das lideranças e de setores populares do principal município daquela região, Altamira.

Os dois lados estão brincando com fogo. A verdade é que o Pará já está dividido, historicamente dividido, sentimentalmente dividido. Basta lermos a introdução do Primeiro Plano Qüinqüenal da SPVEA, mais tarde Sudam, para constatarmos, nas palavras de seu primeiro superintendente, o historiador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, a cruel realidade que permanece, ou seja, nos idos de 1950 a cidade de Belém se caracterizava por abrigar uma elite bacharelesca e predadora das populações interioranas que, historicamente exploradas e sem contar com a presença do Estado, sustentavam os ares de “modernidade” da capital. Isto está num documento oficial, do governo federal.

Se a realidade presente mudou um pouco, seria desonesto não constatar hoje a brutal diferença entre Belém e as principais cidades do interior, um estado cabeçudo com um corpo franzino. Se os representantes do poder político e as lideranças empresariais, culturais e demais proeminências encasteladas em Belém se dessem ao trabalho de menos ir a Miami ou Paris e fossem ao interior que dizem tanto desejar unido à capital, perceberiam a realidade que sustenta o pleito por autonomia.

Há gente falando de plebiscito, de ambos os lados, sem ter a noção do que isso tudo representa. Se a consulta popular resultar num “não”, haverá festas? Se houver, pior ainda. O presente sentimento de aversão crescente contra a campanha pelo “não” poderá – Deus nos livre! – transformar-se em rancor. E o Pará estará dividido pelo ódio, embora “unido” institucionalmente. Seria como forçar a convivência de um casal que deseja ardentemente separar-se.

Há, portanto, subjazendo a isso tudo, algo muito grave que não pode ser encarado com ignorância, irresponsabilidade e molecagem mesmo, a partir de certa imprensa paraense. Cada piada ou gozação que sai no jornal O Liberal e outras mídias de Belém são intensamente repercutidas no Oeste e no Sul do Pará, potencializando o ressentimento. Que futuro estamos construindo dessa forma?

Com as campanhas contra e a favor despidas de racionalidade e de bom senso, o que fica é o emocional, a imaturidade de não tratarmos com alguma seriedade dos problemas do Pará e da Amazônia, como bem identificou o empresário e político Oziel Carneiro há alguns anos. E cito Carneiro por ser ele francamente contrário à revisão territorial. Porém, talvez, uma das poucas vozes que, há algum tempo, chamou a atenção para essa irracionalidade e para a ausência de debates sérios sobre os problemas do Pará como um todo, incluindo aí também as demandas autonomistas.

Não acredito que essa racionalidade aparecerá. Por isso sou pessimista tanto com a perspectiva de um “não”, pelas razões já apontadas, como com a possibilidade de um “sim”. Isto porque as velhas aves de rapina, daqui e de alhures, já preparam as garras para abocanhar o quinhão que sempre foi negado ao povo trabalhador. E essa nefasta herança histórica sobreviverá talvez com mais força e astúcia após uma eventual autonomia do Oeste e do Sul.

Neste sentido, hipotéticos Estados do Pará “remanescente”, Tapajós e Carajás em nada de substancial se diferenciarão: o Zé-Povo continuará arcando com o peso de sustentar as mesmíssimas elites que historicamente usufruíram de seu trabalho. E, se vivo fosse, o sábio e conservador historiador da Amazônia poderia escrever, amanhã, sobre Santarém e Marabá, o mesmo que escreveu de Belém há meio século.

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* Santareno, é jornalista, professor-doutor em Comunicação Social e autor de vários livros.

9 Comentarios:

Anonymous Anônimo Disse...

Bem Manuel Dutra o presente texto: lúcido, instigante e sempre um olhar diferente sobre as temáticas que aborda. Parabéns!

06 setembro, 2007 09:06  
Anonymous Onizes Araujo Disse...

Parabéns, Dutra !
Reflexão pertinente, séria e com o equilíbrio que o assunto merce.

06 setembro, 2007 09:33  
Anonymous Jorge Parente Disse...

Até que em fim leio um texto sólido sobre o significado da divisão para a população, quem paga o preço dessa disputa vai ser as camadas mais empobrecidas, já lá se vão 11 anos e assistir o Dutra dando aula para uma turma de pós-graduação da UFPA em Santarém e ele falava com a mesma propriedade, urge fazer debates sobre essa temática com quem mais interessa essa temática, que são os relegados a condição de pobreza pelos governantes e gritam por uma maior presença do Estado e nunca são atendidos e nem serão caso se consolide a emancipação. Os cidadãos e cidadãs deste estado precisam ser emancipados através de consolidadas por parte dos governos e não com a promessa que repartindo o território terão novas perspectivas. Sou há favor da emancipação do Povo paraense para que possam ser livres com a garantia de política para educação, saúde, moradia e lazer. Brilhante Dutra.

06 setembro, 2007 11:18  
Anonymous Anônimo Disse...

O autor está a favor ou contra? Pelo vai e vem do texto, ele nem é favor nem contra, muito pelo contrário.

Vamos todos entrar num "freezer" e congelar hibernando até descer dos céus o filho de Deus que vai libertar o Zé-Povo do Capitalismo desumano.

As elites que falam das elites estão tão preocupadas com o povo, que é melhor deixar tudo como está, por via das dúvidas.

Se votar "não" vai ficar horrível, se votar "sim" vai ficar horrível também.

Não entendi foi nada!

06 setembro, 2007 16:09  
Anonymous aruanã Disse...

eu digo que tem certos anônimos aqui que ainda precisam treinar mais a leitura... O último anônimo queria o que? que o cara fizesse um manifesto a favor e contra? ele simplesmente tentou mostrar um lado que ninguém comenta, sacou, aru?

06 setembro, 2007 16:38  
Anonymous Anônimo Disse...

Aruanão! Aqui quem fala é Aruasim.Que lado?
Você está completamente enganado, sacou, aru?
Esse é um manifesto sim e contra a divisão, disfarçado de neutralidade, mas, convidando o Zé-Povo a ficar indeciso e jogando a população de Altamira contra Santarém.Daí, os elogios dos contrários, como você.
Isso é debate sério?
Tudo que tinha que ser debatido já foi debatido.
A sorte está lançada e não adianta estrebuchar.
A luta dos emancipacionistas agora é obter no Supremo a decisão de uma ADIN para o voto apenas dos emancipandos, como manda a Constituição.
Votos dos "diretamente" interessados, que aliás já está em pauta de votação.
A responsabilidade dos que causaram essa divisão de fato do povo paraense é que devia ser repensada.

06 setembro, 2007 19:36  
Anonymous Anônimo Disse...

O texto é de uma realidade só! O movimento para a criação de novos estados entrar em uma nova fase irreversível. O relacionamento entre os "paraenses" das duas regiões que desejam a emancipação perante a elite belenense e periférico vai gerar um mal estar “benéfico”, ou seja, vai concretizar um afastamento ainda maior entre a região que ficaria denominada Pará e as demais regiões, mesmo porque já existe um isolamento cultural, pois dançamos com as lendas dos botos enquanto eles dançam o carimbó, torcem pelo Remo e Paissandu e nós torcemos pelos bois de Parintins-AM.
Não acredito em uma solução pacifica, mas com uma visão mais ampla como "amazônico" temos de acreditar que a divisão política em nosso Estado, toda a região sairia ganhando: a Amazônia receberá mais recursos, a representação política na esfera federal será maior. É isso que importa!
Dividir pra somar!!!!

06 setembro, 2007 23:22  
Anonymous Anônimo Disse...

Gostei muito do texto, já que coloca de uma forma lúcida a realidade em torno do "casa-separa". É preciso debates realmente sérios sobre os prós e os contras, sérios mas de uma forma acessível e elucidativa de modo que a população de maneira geral faça parte dessa discussão, e assim participe ativamente e conscientemente no manifesto; pois pior mesmo do que não haver o manifesto é a vitória do "não". Esssa luta não pode ficar restrita a "briguinha de comadres" porque assim no final os políticos de sempre continuam a ganhar com a situação, como é hábito, e o povo a sofrer, com ou sem estado do Tapajós. O que está em jogo é a melhoria da qualidade de vida da população, e não simplesmente o tamanho e a redivisão do estado.

Kátia Maciel

07 setembro, 2007 05:16  
Anonymous Anônimo Disse...

Seria tão bom se todos tivessem esta mesma racionalidade que você. O que precisa ser entendido é o quanto esta divisão do Estado trará de benefício para a população, na minha opinião nem uma, será só mais uma maneira de arrancar mais dinheiro do povo. E realmente esta criando uma divisão emocional.

Rita Sampaio

07 setembro, 2007 06:37  

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