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Jeso Carneiro

Santarém (Tapajós, Amazônia) e cercanias - fatos, fotos e opiniões.



segunda-feira, dezembro 31, 2007

Ajudando a construir uma universidade na Amazônia - Parte II

Aldo Gomes Queiroz (*)


Aceitei o desafio de coordenar o campus da Universidade Federal do Pará no oeste do Pará, tendo regressado a Santarém em janeiro de 1986. Poucas pessoas acreditavam na proposta da UFPA de interiorizar de forma permanente suas atividades. Permaneci na função de coordenador do campus até abril de 2002, tendo sido submetido a um único processo eleitoral, ocorrido no ano de 1993.

A aprovação de 95% da comunidade acadêmica do campus aumentou mais ainda a nossa responsabilidade. Professores do campus de Belém também puderam votar naquela eleição, ampliando para 97% a aprovação ao nosso trabalho. Este resultado não é comum para quem exerce cargo público por tanto tempo, principalmente nos dias de hoje.

A chapa “Universidade e Compromisso Tapajônico” foi composta pelos professores Aldo Gomes Queiroz, coordenador-geral; José Antonio de Oliveira Aquino, vice-coordenador; Nilson Pinto de Oliveira, assessor especial; Raimunda Lucineide Gonçalves Pinheiro, coordenadora de Ensino de Graduação; Maria do Socorro Begeron Lago, cordenadora de Pós-Graduação; Maria Raimunda Santos Costa, coordenadora de Extensão.

Com exceção do coordenador-geral e do assessor especial todos os demais componentes foram formados pelo Projeto de Interiorização e já estavam contribuindo como professores nos cursos permanentes já em funcionamento.

O Programa de Gestão do Campus de Santarém (1993-1997), discutido com a comunidade acadêmica, além de apresentar propostas relativas às atividades de ensino, pesquisa, extensão, administração e infra-estrutura, apresentou também os passos a serem dados para a criação da Universidade Federal do Tapajós – UFTA.

Desde 1983, a Universidade Federal do Pará, em convênio com a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia e com a Prefeitura Municipal de Santarém mantinha em funcionamento o curso de Licenciatura Plena em Pedagogia do qual restavam apenas duas turmas em 1986.

Na administração do prefeito Ronan Liberal, a Prefeitura disponibilizou à UFPA a Escola Dr. Everaldo Martins, além de servidores, material de limpeza e um ramal telefônico para o funcionamento do curso. No início, a coordenadora do Núcleo de Educação de Santarém foi a Prof. Rosilda Wanghon.

Ao assumir a coordenação do campus percebemos que havia um sentimento de insegurança por parte dos alunos quanto à continuidade do curso de Pedagogia, àquela altura, praticamente paralisado. Trabalhamos bastante para reverter o quadro. O trecho de um artigo recente, publicado pelo Professor Dr. Anselmo Alencar Colares, egresso do curso, relata a situação:
“Fiz parte da turma de 1983, a primeira em período letivo normal, mas ainda não era do projeto de interiorização e, sim, fruto do convênio UFPA/Prefeitura/Sudam. Um detalhe: como era época de inflação alta, o dinheiro do convênio acabou e o curso ainda estava na metade. Foi um sufoco!!! Tivemos, nós, os alunos, que partir para convencer professores já habilitados para que ministrassem aulas de forma a garantir nossa formação. E para outras necessidades materiais, fazíamos promoções e as tradicionais feijoadas, festas, bingos, rifas...

No período em que fui presidente do Diretório Acadêmico (o primeiro havia sido o Mário Adônis) liderei uma viagem para Belém de um grupo constituído de, salvo engano, oito colegas do curso, que acampou na UFPA, no espaço dos estudantes chamado Vadião. O grupo reivindicava, entre outras coisas, não apenas a regularização, mas a continuidade do curso, com oferta de novas turmas. Tivemos a garantia de que isto aconteceria por intermédio do Projeto Norte de Interiorização.

Era a primeira vez que isto era publicamente anunciado. A situação começou a normalizar somente após a vinda do professor Aldo Queiroz, nomeado pelo então reitor José Seixas Lourenço, para a coordenação do Núcleo de Educação de Santarém (era o nome do Campus naquela época)”.
Continua na próxima semana.

[Clique aqui], para ler a Parte I
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* Professor, é ex-coordenador do campus da UFPA/Santarém. Foi candidato a vice-prefeito pelo PSDB na eleição de 2004.

5 Comentarios:

Anonymous Anônimo Disse...

Adelson Sousa

Fui acadêmico do curso de Pedagogia na época desta eleição. É bom registrar que não houve disputa, pois havia somente uma chapa inscrita. Talvez por este motivo os percentuais mencionados sejam tão altos. Mas é bom mencionar este esclarecimento.

Adelson Sousa

31 dezembro, 2007 16:36  
Anonymous Anônimo Disse...

Adelson, está correto o seu comentário. Inclusive está implícito no texto. Por isso falo em aprovação e não em vitória. Como era chapa única praticamente se tornou um plebiscito e as pessoas poderiam optar pelo sim ou pelo não. Tivemos recentemente dois plebiscitos onde os eleitores optaram pelo não. Um no Brasil sobre a questão das armas de fogo. O outro foi na Venezuela onde os eleitores disseram não à reeleição indefinida do Presidente Chaves.

Aldo Queiroz

31 dezembro, 2007 18:05  
Blogger Jota Ninos Disse...

“Lado a lado” com Aldo – Parte I

Interessantíssimo o “resgate histórico” sobre o projeto de interiorização da UFPA, com o qual o professor Aldo Queiroz nos brindou na última semana de 2007 aqui no blog do Jeso. Já arquivei as duas primeiras partes do texto “Ajudando a construir uma universidade na Amazônia” e aguardo com ansiedade as outras, para ter mais exemplos de como se constrói um discurso baseado apenas na voz do, digamos assim, “vencedor”.
A história da humanidade está cheia destes exemplos e o professor Aldo Queiroz mostra sua capacidade ímpar para, como engenheiro que é (se eu não estiver enganado), construir tal “verdade”. Mas para toda a construção sempre haverá uma desconstrução, e por alguns comentários já postados nas duas partes do artigo percebe-se que algumas pessoas já entenderam o que está por trás deste bem construído discurso, no momento em que a UFOP – Universidade Federal do Oeste do Pará se consolida.
Como Adélson Sousa, também fui aluno do Campus da UFPA entre 1992/2002, muito embora não tenha conseguido me graduar em Letras e ter sido jubilado, justamente, pela instituição. Mas no início de minha vida acadêmica naquele Campus, vivi no “olho do furacão” desse projeto de interiorização da UFPA iniciado – como bem disse o professor Aldo – na gestão de Seixas Lourenço. E apesar de apoiar o projeto, alinhei-me com aqueles que desconfiavam de suas verdadeiras intenções que, logicamente, não são citadas no “discurso do vencedor”.
Há que se destacar o papel do professor e atual deputado federal Nilson Pinto na gênese desse projeto. Se bem me lembro, ainda como pró-reitor na gestão de Seixas Lourenço, Nilson liderou o movimento em torno da interiorização e consolidou um grupo político que, além de praticamente se perpetuar no comando da UFPA, consolidou-se extra-muros da universidade participando de eleições partidárias através do PSDB. Mas é bom que se diga que Nilson (mentor do grupo) chegou a flertar com o PT do Pará antes de se tornar tucano.
Foi no âmago dessa relação político-partidária que acabei me envolvendo no “Campus de batalha” em que se tornou a disputa pelo poder no núcleo de Santarém, que era a “menina dos olhos” do projeto de interiorização da UFPA. Convivi de perto com o jogo sujo dos conchavos, das manobras eleitoreiras, da cooptação de lideranças e das velhas e malfadadas práticas ditatoriais e de cerceamento da liberdade de expressão de quem se opunha ao status quo.
À época, quase sem querer, acabei liderando um movimento não contra a universidade, mas contra os métodos para geri-la à fórceps, passando por cima do verdadeiro debate dialético que se pressupõe no âmbito universitário.
Não espero que nada disso surja nos relatos do professor Aldo, como bem demonstra em sua resposta, pela tangente, à provocação feita por Adélson em seu comentário. Adélson, aliás, foi um dos solitários companheiros de algumas destas batalhas contra o clima ditatorial que reinava no Campus, na época em que nós dois comungávamos dos mesmos ideais (na verdade não creio que eu e Adélson comunguemos de ideais diferentes, apenas divergimos de metodologias em certo momento e acabamos nos afastando. Mas isso é outra história que nada tem a ver com esse artigo).
Assim, quero relatar também em partes, lado a lado com Aldo, minha visão sobre um determinado período dessa “construção” (principalmente quando da eleição do reitor Marcos Ximenes) de que fala o “grande mestre”. Digo “grande mestre”, porque aprendi a admirar a capacidade do professor Aldo de arquitetar planos para manter uma autocracia de 12 anos à frente do Campus e conseguir passar a imagem de “grande gestor” através da mídia local, até tentar consolidar-se como líder político-partidário (e como ele é o próprio “sufixo da política santarena”, juntou-se aos Ubaldos, Geraldos, Everaldos. Ronaldos e outros aldos...)
Mas foi nesse momento em que, para mim, ele se humanizou: fora da universidade sua força diminuiu e sucessivas derrotas eleitorais botaram abaixo mais de uma década de esforço para construir a imagem de um vencedor.
Os ídolos, como dizem, tem os pés de barro.
(Continua na próxima semana)

02 janeiro, 2008 07:27  
Anonymous Anônimo Disse...

NADA COLOCOU ABAIXO A IMAGEM DE ALDO QUEIRÓZ. É POR NÃO SER O TIPINHO POLÍTICO QUE CONVENCE NO INTERIOR QUE ELE NÃO SE ELEGEU NOS PLEITOS A QUE CONCORREU. ISTO EM NADA OFUSCA SEU TALENTO NATO COMO GESTOR DE ENSINO!!!!!!!!!!!!!

02 janeiro, 2008 12:43  
Anonymous Anônimo Disse...

De Aldo Queiróz na UFPA só me lembro de quando estudante que fui daquela universidade em santarém, de cantar juntamente com meus colegas, uma música de Chico Buarque que lhe esquentava os ouvidos:

Apesar de você amanhã há de ser, outro dia...

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

03 janeiro, 2008 17:54  

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